Omissão genocida

Valor Econômico, José de Souza Martins – 29/03/2018

Ultimamente, especialistas têm chamado a atenção da comunidade científica e do público em geral para o crescimento do número de suicídios entre indígenas, especialmente de jovens. Em 2015, no conjunto da população brasileira, a taxa de suicídios era de 5,3 por 100 mil; a de indígenas era de 30 por 100 mil. Entre os guarani-kaiowá, o grupo mais afetado por suicídios de jovens, a taxa era de 60 por 100 mil, quase 12 vezes a taxa nacional.

Em 1995, a taxa de suicídios entre os índios sorowahá, do tronco linguístico Aruaque, no Alto Purus, Amazonas, era de 215,7 por 100 mil, 40 vezes a média brasileira. Praticamente um suicídio coletivo, manifestação de consciência de que neste país, que tomou e continua tomando a terra dos índios, não sobrou lugar para eles. Nem é uma questão de esquerda e direita. Segundo o Conselho Indigenista Missionário, o governo Dilma Rousseff se caracterizou pela omissão em relação à demarcação das terras indígenas.

Para o Ministério da Saúde, de 2011 a 2016, era de 44,8% a taxa de suicídios entre jovens indígenas (de 10 a 19 anos), enquanto a taxa entre brancos e negros somados era de 5,7%, incluídos os pardos. As ocorrências envolvem majoritariamente jovens do sexo masculino, embora seja alto o número das moças que põem termo à vida. O enforcamento é o meio mais frequente, seguido dos casos de envenenamento. Em 2016, 20% dos 30 índios que se mataram no Mato Grosso do Sul tinham de 5 a 14 anos de idade.

Nos últimos anos começaram a ocorrer suicídios entre os karajá, da região do rio Araguaia, especialmente na Ilha do Bananal, Estado do Tocantins, com maior incidência entre jovens. Quando estive na região, nos anos 1970, não havia notícias de suicídios de índios. Embora houvesse alguma inquietação com a aproximação e o casamento consensual entre moços da aldeia de Santa Isabel do Morro e moças “do Brasil”, um país da outra margem do rio Araguaia.

Os suicídios de jovens indígenas indicam a enorme crise que o contato descontrolado de nossa sociedade tem trazido às sociedades tribais. Tomados por sua versão tribal do fim apocalíptico do mundo para o qual nasceram e que para eles deixou de existir quando estavam chegando à condição de adultos nas obrigações comunitárias e nas responsabilidades do trabalho, da constituição da família e da procriação.

Socializados e educados nos valores e nas concepções do humano de suas tribos, chegam ao portal da maturidade e descobrem que suas sociedades de identificação e pertencimento estão corroídas e inviabilizadas pela influência descontrolada e destrutiva da nossa sociedade dominante. A da conduta irresponsável que há no desconhecimento do que é o outro e do respeito a que ele tem direito na sua diferença cultural e social.

A sociedade brasileira não entende que os direitos sagrados reconhecidos aos índios na Constituição e na lei são direitos a serem respeitados sobretudo por quem índio não é. A ideia do branco absoluto é uma disposição para o crime contra o direito à diferença.

Embora trágicos, os suicídios não são o único fator de grave comprometimento da sobrevivência de nossas sociedades indígenas. A alta mortalidade infantil nessas populações agrega fatores de inquietação quanto ao seu futuro. Em 2015, dados do Ministério da Saúde indicavam que a taxa de mortalidade infantil entre os índios era de 38 casos por mil nascidos vivos, mais que o dobro da taxa nacional, no mesmo ano, que era de 15 por mil nascidos vivos.

O Brasil tem uma responsabilidade histórica com suas populações indígenas, mães da nação brasileira, de quem herdamos a miscigenação que desde o início nos fez mestiços, nos legou uma língua mestiça de português arcaico e de nheengatu, de costumes alimentares baseados no milho e na mandioca, de sonos dormidos na rede e na esteira, de um imaginário povoado de entes míticos que ainda governam nossa mentalidade, nossos sentimentos e nossos discernimentos.

Sem o índio não seríamos nada. Como em todos os lugares do Brasil, mesmo nas grandes e cosmopolitas cidades, como São Paulo, nossa toponímia ainda é tupi-guarani – Mooca, Ibirapuera, Anhangabaú, Tamanduateí, Tietê, Butantã, Pirituba, Jaraguá, Capuava, Ipiranga. Praticamente, a mesma língua que usurpamos dos jovens guarani-kaiowá, que hoje se matam porque lhes tomamos também a terra e a esperança.

Darcy Ribeiro já havia dito num de seus livros que o indígena foi contatado pelo pior tipo de brasileiro, o que saqueia, escraviza, violenta e mata. O brasileiro ignorante das nossas legítimas diferenças culturais e sociais.

A indiferença do Brasil, governo e povo em relação à tragédia indígena é o fundamento do que na prática constitui uma omissão genocida.