Carreira longa leva brasileiros com mais de 40 anos de volta à escola

Folha de S.Paulo, Érica Fraga e Ana Estela de Sousa Pinto – 01/04/2018

Pai estuda com o filho, garçom conclui ensino básico e idosa faz computação

O envelhecimento nem sempre é uma barreira à busca por maior escolaridade.

O desejo de continuar trabalhando ou simplesmente de aprender coisas novas vem levando os adultos brasileiros a alçarem pequenos voos educacionais.

Uma análise feita pelo economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper, mostra que, ao passar de 40 para 50 anos de idade, a geração nascida em meados do século passado aumentou sua escolaridade média de 5,64 para 5,96 anos.

Um crescimento de 5,7%. Ao fazer essa mesma transição etária, os brasileiros nascidos uma década mais tarde tiveram um avanço maior, ao ampliar seus anos médios de estudo 7,08 para 7,59. Um salto de 7,2%.

Os números levantados pelo economista a pedido da Folha, a partir da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), indicam que os brasileiros têm buscado estudar à medida que envelhecem e que essa tendência vem se tornando mais rápida.

“A gente vai envelhecendo, e a mente da gente atrofia se não exercitar”, diz Geraldo Hilário Pontes, 67.

A história do ex-garçom, hoje aposentado, ilustra bem o progresso educacional capturado pelas estatísticas.

Já adulto, Pontes fez o ensino fundamental a distância e, posteriormente, cursou o ensino médio no supletivo. “Era garçom, e, você sabe, garçom não tem muito tempo para estudar, né?”, diz.

Escola universal era uma realidade distante da infância da geração de Pontes.

O Brasil acordou tardiamente para a importância da educação. A universalização da matrícula no ensino fundamental só ocorreu no início dos anos 2000.

Ao longo das últimas décadas, o volume de pesquisas mostrando o impacto da educação – ou do “capital humano” – sobre o desenvolvimento econômico disparou.

O efeito positivo do aumento da escolaridade sobre a renda também se tornou mais conhecido.

Essas informações contribuíram para ações que levaram a um salto na escolaridade média dos brasileiros, puxado pela inclusão escolar de crianças e adolescentes.

Ainda que num ritmo mais lento, porém, os adultos vêm correndo por fora, aproveitando oportunidades como o antigo supletivo – hoje chamado de EJA (Educação de Jovens e Adultos).

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a população com mais de 30 anos duplicou entre 1992 e 2015, de 56 milhões para 113 milhões de pessoas.

No mesmo período, o número de brasileiros nesse grupo etário matriculado na escola se multiplicou por quatro, de 759 mil para 3 milhões. Com isso, passaram de 2% para 5,5% do total de alunos do ensino básico no país.

Outros dados, como os compilados pelos economistas Robert J. Barro e Jong-Wha Lee para algumas dezenas de países, incluindo o Brasil, também apontam na direção do aumento da escolaridade entre os adultos.

Eles mostram, por exemplo, que, no início da década de 1980, apenas 7,6% da população brasileira com idade entre 20 e 24 anos possuía o ensino médio completo. Quando essa geração se tornou cinquentenária, por volta de 2010, 21,2% de seus representantes tinham atingido essa escolaridade.

O avanço educacional capturado pelos números pode ser, em parte, efeito estatístico da mortalidade mais alta entre os mais pobres e, portanto, menos escolarizados.

Mas, segundo especialistas, isso não explicaria todo o crescimento da escolaridade entre os adultos, até porque a expectativa de vida vem aumentando no país.

Segundo Menezes Filho, esse é, aliás, um dos motivos que leva os adultos a estudarem à medida que envelhecem: “As pessoas estão vivendo mais e, por isso, buscando se educar mais, em parte porque sabem que precisarão trabalhar por mais tempo”, diz o economista.

Gisela Castro, professora do programa de pós-graduação em comunicação e práticas de consumo da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing) confirma a tendência. Ela diz que há procura crescente de profissionais experientes por pós-graduação com o objetivo de adotar a carreira acadêmica como uma nova opção de trabalho.

“São pessoas de 50 anos ou mais ativas, procurando maximizar seu tempo numa vida produtiva”, diz ela.

O desejo de se manter ativo por muito tempo ainda foi exatamente o que motivou o desenhista industrial Paulo de Tarso, 55, a cursar uma segunda faculdade.

Ele fez a primeira graduação na década de 1980 e trabalhou com desenho e desenvolvimento de produtos. Depois mudou para marcas e patentes, com o que ainda atua. Mas nunca perdeu o interesse por computadores.

Até que seu filho Rafael, 22, que estuda engenharia de computação na Fundação Salvador Arena – instituição sem fins lucrativos – lhe perguntou por que ele não voltava a estudar. Tarso acabou conseguindo uma vaga no mesmo local e curso do filho.

“Se vou mudar de emprego, não sei. Mas a gente precisa estar preparado. Eu gostaria imensamente de trabalhar nessa área. Talvez voltar a dar aulas para retribuir o que estou recebendo”, diz ele.

O ex-garçom Pontes conta que ter voltado a estudar não o levou a mudar de área, mas o tornou um profissional mais completo: “Como o garçom lida com o público, eu passei a trabalhar melhor tendo mais conhecimento”.

O propósito de se tornar mais versátil também levou a pequena empresária Herenice Cavalcante Teixeira a voltar a estudar. Aos 68, ela toca um negócio de bordados computadorizados com o marido José Luiz, 69. Embora ele já cuide da parte técnica, Herenice também quer participar dessa etapa da produção.