Brasileiros temem menos a inteligência artificial

Valor Econômico, Letícia Arcoverde – 15/03/2018

Profissionais de todos os níveis estão certos de que a inteligência artificial vai promover mudanças em seus empregos.

Embora otimistas em relação ao futuro, os brasileiros ainda têm pouco conhecimento do que isso significa para sua formação e qualificação – e os programas de treinamento das empresas não estão ajudando com isso.

A conclusão é de pesquisa da consultoria Accenture Strategy, realizada com 14 mil profissionais e 1.200 executivos em 11 economias. No Brasil, foram ouvidos 100 executivos e mais de mil profissionais dos demais níveis.

A inteligência artificial já gerou alguma mudança no desenho dos cargos e funções da maioria das empresas brasileiras, segundo os executivos ouvidos pela pesquisa. Em 63% dos casos, esse impacto é relativo, enquanto em 19% é considerado grande. Apenas 7% dizem não ter visto influência nenhuma.

Entre os executivos, 62% citam a lacuna entre as habilidades necessárias para a empresa e as encontradas nos profissionais como o principal fator que influencia sua estratégia de talentos. Eles acreditam que só 25% da sua força de trabalho está preparada para trabalhar com inteligência artificial. As principais medidas tomadas pelos gestores para prepararem o quadro para o futuro são o desenvolvimento de treinamentos internamente (22%), parcerias com outras instituições e provedores de serviços para criar programas de desenvolvimento (21%) e projetos de gestão da mudança (16%).

Ainda assim, os investimentos em treinamento e requalificação do quadro de funcionários não estão aumentando significativamente. Em metade das empresas, a expectativa é que o valor destinado à área se mantenha o mesmo nos próximos três anos, e a outra metade prevê que o valor gasto será pouco maior que o atual.

Para Vasco Simões, líder da Accenture Strategy no Brasil e América Latina, ainda falta entendimento de quais papéis e habilidades serão importantes no futuro para que isso guie as estratégias de treinamento. “Há uma dificuldade em tentar definir quais capacitações serão necessárias”, diz Simões. “Provavelmente não vai ser uma capacitação de conhecimento, mas sim de comportamento.”

A falta de clareza de quais habilidades devem ser priorizadas é a maior barreira para 10% dos executivos na hora de dedicar mais investimentos à área de desenvolvimento. Dificuldades financeiras, como o custo alto de redesenhar programas de treinamento (16%) e o desafio de mensurar o retorno ao investimento (15%), são citadas por mais gestores.

Os profissionais brasileiros são mais otimistas em relação às transformações que novas tecnologias vão trazer para o trabalho. Aqui, 87% acham que o impacto no próprio trabalho será positivo, e que tecnologias vão gerar oportunidades, enquanto na média global 62% concordam. No Brasil, a maioria acha que tecnologias que usam inteligência artificial vão tornar o trabalho mais interessante e simples, encorajar a criatividade e a inovação e melhorar o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal.

A maioria dos brasileiros (59%) também se diz muito confiante nas suas habilidades com novas tecnologias. Cerca de 40%, no entanto, alegam que a falta de tempo para se atualizar e o pouco apoio dos empregadores são as principais barreiras para aprender novas habilidades. Um terço dos profissionais também sente que não tem clareza do que exatamente precisam aprender.